#152 Terra dos Mortos (2005)

Terra dos Mortos

2005 – EUA colorido 93 minutos

Land of the Dead

Direção e roteiro: George Romero

Elenco: Simon Baker, John Leguizamo, Eugene Clark, Asia Argento, Dennis Hopper, Robert Joy, Joanne Boland, Simon Pegg, Edgar Wright, Greg Nicotero, Tom Savini, entre outros e outras.

O ano é 2005, exatos trinta e sete anos desde o lançamento d’A Noite dos Mortos-Vivos, filme que como todos e todas sabemos, ressignificou os zumbis e suas possibilidades em um preto e branco proposital para não chocar o público com os hábitos alimentares incomuns apresentados em tela e que sem ter intenção, tomou proporções históricas pelo recorte racial trabalhado através de Ben, personagem negro fora dos clichês que acontece de, pela primeira vez na história do cinema americano, descer o sarrafo num homem branco, além de ter que sobreviver por uma noite inteira numa fazenda cercada de zumbis.

Dez anos depois, já colorido, igual no primeiro filme, acompanhamos os primeiros tempos do surgimento dos mortos-vivos, desta vez sob a perspectiva de quatro pessoas que se entrincheiram num shopping center para tentar sobreviver às criaturas e aos seres humanos, um adversário tão perigoso quanto os devoradores de vivos. Em 1985, quase vinte anos depois do lançamento do primeiro filme, vemos que os zumbis venceram e que pouca coisa pode ser feita a não ser procurar um ambiente menos insalubre para sobreviver, mas, enquanto isso não acontece, os personagens se digladiam numa base militar enquanto o mundo além dali já mais que desmoronou. Observando-os em conjunto ou em separado, são notáveis as camadas sociais trabalhadas nos três filmes, no primeiro, temos a resistência de um homem branco à posição de liderança de um homem negro; no segundo, a relação sociedade e consumismo é certeiramente cutucada quando ouvimos a teoria do porquê da insistência dos zumbis em orbitar o shopping center onde alguns sobreviventes se escondem; no terceiro, vemos arruinar-se a certeza dos militares de que eles são a saída ideal para momentos de emergências nacionais quando na base em que estão, regras totalitárias começam a ser aplicadas.

Questões relevantes do mundo real utilizadas de forma crítica, acertando sempre em cheio. Os anos se passaram e nesse meio tempo o diretor transformou um macaquinho bem fofinho num animal assustador em Monkey Shines (1988) e em 1990, junto com Dario Argento fez Dois Olhos Satânicos, baseado em O Gato Preto e O Estranho Caso do Sr. Waldemar, ambos contos de Edgar Alan Poe, além de escrever o roteiro do remake de A Noite dos Mortos-Vivos, que seria dirigido por Tom Savini, responsável pelos efeitos especiais em vários de seus filmes, além de participar em alguns deles. Adaptou A Metade Sombria (1993), baseado em livro homônimo de Stephen King e não podemos deixar de citar Tales from the Darkside, série em formato de antologia surgida na esteira do sucesso de Creepshow (1982) e que durou de 1983 até 1988. Achou pouco? Apois saiba que, entre várias outras coisas, o homem atuou em O Silêncio dos Inocentes  (1990), de Jonathan Demme, dirigiu um comercial em live action para o game Resident Evil 2 e lançou Toe Tags, minissérie em quadrinhos em seis partes pela DC Comics, até que em 2005, exatos vinte anos após ter dado como encerrado o seu olhar sobre os mortos-vivos no cinema, Romero nos agraciou com Terra dos Mortos, filme que vai além do que vimos até ali e trabalha diretamente com a evolução dos zumbis, possibilidade aventada discretamente em Dawn of the Dead (1978), quando o zumbi hare Krishna(!!!) age além do efeito manada, ou quando os cientistas descobrem que certas memórias deles possam ser acessadas, fazendo com que eles ajam de maneira organizada e até “civilizada”, como no caso do icônico Bub, em Dia dos Mortos (1985).

Em Terra dos Mortos muitos anos já se passaram desde a desgraceira zumbi e parte dos sobreviventes vive num enclave socialmente estratificado em Nova Iorque. Os ricos vivem em Fiddler’s Green*, um paraíso vertical com cara de cenário de comercial de margarina, um lugar onde uma gente que não faz absolutamente nada vive nababescamente, enquanto abaixo, nas ruas, alguns grupos disfarçam cada vez menos a sua insatisfação com o sistema que eles sustentam, mas, do qual pouco ou quase nada usufruem. Tudo no lugar, da prostituição, distribuição de drogas até o controle dos moradores de Fiddler’s Green está nas mãos de Kauffmann (Dennis Hopper), um canalha engravatado com ar respeitável igual tantos outros que existem por aí, seja num mundo pós-apocalíptico ou não.

Sob o comando dele, um grupo de pessoas sai regularmente do território seguro em busca de bens que possam ser comercializados, como bebidas alcóolicas, cigarros e tudo o mais que possa se transformar em lucro exorbitante lá dentro. O problema (porque sempre tem um, né?) é que essas inserções no território exterior tem incomodado os mortos-vivos, que, à maneira deles, desenvolveram hábitos sociais e de convivência que repetem diariamente à exaustão, só devorando seres humanos quando eles dão bobeira, fora isso, têm uma existência bem monótona, até o dia em que, após um ataque onde vários deles são massacrados, liderados por Big Daddy (Eugene A. Clark), iniciam uma caminhada em direção ao enclave com clara intenção de colocar “os pingos nos “is””, angariando vários companheiros e companheiras pelo caminho, enquanto se adaptam para lutar e vencer o conflito que se avizinha. 

Entre eles e esse acerto de contas, Riley (Simon Baker) e Charlie (Robert Joy), que querem não apenas sobreviver, mas, fazê-lo longe daquele lugar e são pegos no fogo cruzado dos interesses de Kauffmann e dos zumbis. Nunca as críticas presentes nos filmes de Romero foram tão ácidas e explícitas como em Terra dos Mortos, onde a humanidade, depois de tudo o que aconteceu, ainda insiste em replicar um sistema falido e completamente inviável para a realidade que se apresenta.

As esperanças e decepções que este norte representa são vividas principalmente por Cholo (John Leguizamo, excelente como sempre), um dos mais eficientes funcionários de Kauffmann, que, mesmo com condições financeiras de ter seu próprio espaço em Fiddler’s Green, tem seu pedido negado muito provavelmente por causa de sua origem hispânica, o que faz com que as relações entre ele e o patrão se abalem, atrapalhando ainda mais os planos de Riley e Charlie, que para poder alcançar seus objetivo particulares, acabam por formar um grupo improvável (com Asia Argento entre eles e elas) e sair à caça de Cholo, que se apossou de um veículo com grande poder de destruição que ameaça a existência de tudo o que foi construído até ali, para o bem e para o mal. Impossível não vibrar ao lembrar do passo a passo da evolução das criaturas de 1968 até ali e perceber que as demandas deles são justas, pois o mundo agora a eles e elas pertencem e isso não tem volta e enquanto isso, somos agraciados com membros decepados, traições, alianças, eletrocuções, vísceras expostas, tiros, explosões, gente gritando pela vida e gente gritando pela morte. 

Não parariam em Terra dos Mortos os experimentos do diretor com os zumbis, mas, essa é uma outra história, um outro texto. Oremos.

*Fiddler’s Green: de acordo com o Wikipedia, é uma antiga lenda inglesa, um lugar de eterna alegria onde um violinista nunca para de tocar e os dançarinos, por sua vez, nunca se cansavam neste paraíso pós-morte prometido aos marinheiros com mais de cinquenta anos de serviços prestados.




Comentários