#176 A Hora do Pesadelo 6: Pesadelo Final, a Morte de Freddy (1991)

Massacrado, xingado, esculhambado por todos, A Hora do Pesadelo 6: Pesadelo Final, a Morte de Freddy é o sexto filme da franquia do Freddy Krueger e foi simplesmente bombardeado de todos os lados. Os fãs o odeiam, a crítica o odeia, provavelmente seus atores o odeiam também, não tenho certeza nem se a diretora gosta dele. Mas eu não. Eu não o odeio. 

Em A Hora do Pesadelo 6, o último sobrevivente da matança do Freddy em Springwood é o jovem John Doe (Shon Greenblatt) — sim —, que é levado a um abrigo fora da cidade. Chegando lá, entretanto, a doutora Maggie Burroughs (Lisa Zane), percebendo que o pobre garoto tem amnésia, resolve que é uma boa ideia confrontar esse esquecimento dele o levando até a cidade. No caminho até lá, John e seus novos colegas, Spencer (Breckin Meyer), Carlos (Ricky Dean Logan), e Tracy (Lezlie Deane) — todos eles tendo sofrido algum tipo de abandono parental ou abuso por parte de adultos — querem tomar o controle da van onde estão.

Mas, fazendo isso, eles vão parar direto na Elm Street. E é aí que o negócio desanda, é claro. Lá eles descobrem um pouco mais sobre a história de vida do Freddy, e descobrem que ele teve um filho. John acha que é ele, mas logo descobrimos que não, levando então à conclusão original da franquia.

Diferente de outras franquias slasher do período, que anunciaram excessivamente a morte falsa de seus assassinos mascarados, A Hora do Pesadelo 6 realmente mata Freddy. Ele é revivido somente (e em partes) em O Novo Pesadelo, de uma forma bem pouco ortodoxa, do jeitinho Wes Craven de fazer as coisas, e depois contra o Jason (fora aquele remake pavoroso de 2010). 

O filme é bom? Não vou dizer que é. Mas acho que ele recebe um hate desnecessário (a maioria dos fãs nem chega a assistir ao coitado!). A Hora do Pesadelo 6 foi dirigido por Rachel Talalay que, naquele momento, parecia ter um futuro brilhante pela frente. Depois desse filme, a Talalay dirigiu O Fantasma da Máquina (1993) e o filme da Tank Girl (intitulado Tank Girl, Detonando o Futuro, de 1995, que, até onde eu saiba, é bem querido nas rodinhas mais undergrounds entre os undergrounds). 

Mas, desde Tank Girl, Talalay tem dirigido principalmente séries — nos últimos anos, ela dirigiu episódios de Deuses Americanos, Riverdale, O Mundo Sombrio de Sabrina, Patrulha do Destino e Sherlock, entre outros. Sua última incursão no universo dos filmes foi com Manual de Caça a Monstros, um infanto juvenil de terror bonitinho que saiu pela Netflix em 2020. 

Meu segundo texto neste especial foi sobre The Attic, da Mary Lambert. Longe de ser um filme bom, eu me questionei muito sobre essas faltas de oportunidade na indústria do cinema para mulheres que não atingem o mais alto grau de excelência com seus filmes — que é o caso da Lambert e da própria Talalay. Lambert dirigiu Cemitério Maldito, um dos filmes mais queridos de adaptação do Stephen King, apesar da qualidade limitada, sim. E Talalay foi uma das únicas diretoras a dirigir um filme em uma franquia slasher de sucesso. Podem vasculhar as franquias de Sexta-Feira 13, Halloween, Massacre da Serra Elétrica. Não temos diretoras. Mas, claro, depois o que restou foram uma série de filmes de baixíssimo orçamento e alguns episódios de série.

Novamente: se por escolha ou realmente falta de interesse da indústria em si, não sei dizer. Mas acho que depois que acontece na história de duas, três, quatro, oito pessoas diferentes, eu penso que deixa de ser uma coincidência e passa a ser um problema.

No artigo “Self-Reflexivity and Feminist Camp in Freddy’s Dead: The Final Nightmare”, de Tosha R. Taylor, que está no livro Women Make Horror, a autora fala sobre certas decisões corajosas que Talalay teve na realização desse filme — entre elas, explicitar, ainda mais, que Freddy é um molestador. Mesmo que isso fique ali durante toda a franquia, Talalay explora isso através de flashbacks e torna um tema constante ao longo do filme, com os personagens mais jovens. Ela também consegue trazer mais camadas à história de Freddy. Se até então sabíamos que ele havia sido morto pelos pais dos jovens da Elm Street, agora sabemos que ele tinha uma família, ele era um homem comum — daqueles que a gente nunca acha que vai vir um crime hediondo. 

Talalay foi uma frequente colaboradora de John Waters nos anos 1980. Foi produtora do diretor em Polyester (1981), Hairspray (1988) e Cry-Baby (1990). Se A Hora do Pesadelo 6 parece exagerado (ou camp, usando as palavras de Taylor), então há um motivo para isso. É através dessa característica que Talalay, em sua estreia como diretora, escolhe contar a história já consagrada de um vilão que, naquele momento, era um estouro. 

Enquanto temos diretores medíocres contando histórias meia boca sem a mínima vontade de pelo menos tentar trazer algo de diferente para histórias já conhecidas (a gente viu a onda de remakes invadindo hollywood nos últimos anos [e desde sempre, sejamos justos]), eu acho que deveríamos valorizar aqueles que se arriscam.

Não me entendam mal, eu adoro um filme meia boca. São os filmes que eu escolho pra assistir em um final de dia cheio quando não quero pensar em nada. Mas acho que, se vamos reclamar das atitudes da grande indústria de escolher apostar no certo, ao invés de dar uma chance para o duvidoso, então devemos ser coerentes e tentar entender de onde vem esses filmes “mais ridículos”. 

A Hora do Pesadelo 6 pode não ter sido um sucesso, pode ser odiado e xingado por aí — quando ele sai na rua, pobrezinho, recebe cusparadas violentas de passantes —, mas não podemos negar que houve uma tentativa. E que a Rachel Talalay merecia mais. 


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